SBPC termina com desafio de garantir novo marco legal da ciência

A 63º reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência terminou nesta sexta-feira, 15 de julho, com números que impressionam: 8.886 inscritos, 5.947 trabalhos científicos apresentados em pôsteres por alunos de graduação, mestrado e doutorado, 438 palestrantes em 174 conferências, 125 instituições com stands de exposições científicas montados e pelo menos 70 atividades culturais.

Para professores, pesquisadores e alunos, o que fica é a troca de experiências e a oportunidade de se manifestar sobre os grandes temas da política científica em mesas que contam com a participação de autoridades na área. “A SBPC é um processo de interlocução que não representa apenas o registro das novidades de cada área. Ela permite uma interdisciplinaridade dificilmente experimentada no cotidiano, além de ser um espaço político vital ao desenvolvimento da ciência”, analisa o reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Junior.

O professor Cesar Koppe Grisolia, do Instituto de Biologia, que apresentou pesquisa sobre o cerrado, acredita que é de extrema importância para a universidade participar desses encontros. “A gente pode divulgar nosso trabalho e ainda encontra parcerias. O pesquisador trabalha melhor se trabalha em equipe”, acredita.

Para os alunos da graduação, mestrados e doutorados, o encontro representa uma imersão no futuro, principalmente para aqueles que vieram expor trabalhos científicos nos murais montados ao longo dos corredores de acesso às unidades acadêmicas da universidade. Um total de 5.947 trabalhos foram exibidos durante os cinco dias, sempre no intervalo de 13h às 15h, horário de maior movimentação nos corredores. “É uma experiência indispensável para entrar no mundo da ciência”, resume a estudante de Biologia da Universidade de Brasília, Gleide Nepomuceno, que mostrou seu trabalho na última quinta-feira. Ela é uma dentre 109 estudantes que exibiram seus experimentos na SBPC.

No intervalo entre a sequência de 27 conferências diárias em média, os participantes puderam conferir atividades culturais e exposições científicas. Cento e trinta e cinco instituições montaram stands de exposição por onde circularam aproximadamente cinco mil pessoas por dia. “As exposições estão entre os espaços mais importantes da SBPC e deveriam ser estendidas durante o final de semana, porque atraem jovens e crianças de toda a cidade e não só da universidade”, observa Ildeu de Castro Moreira, diretor do Departamento de
Difusão e Popularização da Ciência do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Isaac Roitman, já é um veterano nas reuniões da SBPC. “A primeira que eu participei foi em 1966 e, de lá pra cá, tenho participado de quase todas”, conta. Para ele, as reuniões servem como oportunidade de aprendizado. “Eu acho que o pesquisador aprende mais aqui do que nas próprias instituições de origem. Você tem a oportunidade de ouvir pessoas notáveis e ser protagonista de debates importantes que acabam não acontecendo na academia devido as atividades do dia-a-dia”, acredita.

MARCO LEGAL – Durante cinco dias, cientistas e autoridades repetiram exaustivamente que é necessário um novo marco legal para a ciência que permita produzir conhecimento sem as amarras legais impostas pela legislação atual. A questão foi apontada pela presidente da SBPC como a principal meta que sai do encontro. “A atual legislação tornou insustentável o fazer ciência no Brasil”, disse.

O maior alvo de críticas durante todo o encontro foi a Lei 8.666 de 2003, que trata do processo de compras públicas. Uma proposta de mudança na legislação deve ser apresentada pelos cientistas até o final de agosto. O trabalho está sendo produzido por grupo criado pelo Conselho Nacional de Secretários Estaduais do setor e pelo Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, com constribuições da SBPC, CNPq, Capes e Finep.  “Estamos discutindo e procurando sensibilizar os legisladores, o Ministério Público, os agentes de estado”, afirmou Helena Nader. 

Outra meta traçada como prioritária é a de convencer o Congresso Nacional a destinar royalties do pré-sal para a área de ciência e tecnologia. “Se não conseguirmos isso, perdermos uma oportunidade histórica única de fazer a ciência desse país avançar, o que alavancará, como consequência desenvolvimento econômico”, disse o reitor da Universidade Federal de Goiás, Edward Madureira.


Servidores da UnB fazem apitaço na SBPC

Um grupo de 25 servidores da Universidade de Brasília participou da 63ª Reunião da SBPC nesta sexta-feira. Eles vieram reivindicar negociação sobre aumento de salário em ato programado pelo Comando Nacional. “Viemos porque o ministro da Educação Fernando Haddad estaria aqui”, afirmou Mauro Mendes, coordenador do Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub). A presença do ministro, no entanto, foi adiantada para a quinta-feira. Fernando Haddad passou a tarde no campus. Para não perder a viagem, os servidores técnico-administrativos percorreram o campus da Universidade Federal de Goiás com apitos e faixas e interromperam a mesa redonda da qual participava o secretário de Ensino Superior do Ministério da Educação, Luiz Claudio Costa. “Vamos ainda ao alojamento dos estudantes ler para eles a nossa pauta de reivindicações”, conta Mauro.

por Juliana Braga


Mato do cerrado pode ter propriedades medicinais

Lamiaceae é uma família de plantas encontrada em diversas partes do mundo, mas principalmente em regiões mediterrânicas e do Oriente Médio. Fazem parte desse grupo o boldo, a sálvia e a hortelã, plantas conhecidas por suas propriedades medicinais no trato de doenças do sistema digestivo. Há cerca de dez anos, espécies dessa família foram encontradas no cerrado. “A descoberta é tão recente que elas não têm nem nome popular ainda”, conta Maria Teresa Faria, doutoranda do Departamento de Botãnica de Universidade de Brasília, que decidiu analisá-las para ver se tinham os mesmos compostos das outras espécies da família. “E pelo o que tudo indica, elas tem”, acredita a pesquisadora.

Maria Teresa apresentou parte de sua pesquisa nos pôsteres da 63ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Ela selecionou treze espécies do gênero Hypenia encontradas em Alto Paraíso, Pirenópolis e Cavalcante, municípios goianos. “São plantas sobre as quais não existem estudos até hoje. A população dessas regiões acha que é mato”, diz. Ao analisar as plantas, Maria Teresa encontrou alguns dos compostos que são usados no tratamento de doenças gastrointestinais. Para chegar a esse resultado, a pesquisadora analisou moléculas dos óleos essenciais das plantas.

Caso consiga provar que o “mato” do cerrado também tem propriedades medicinais, as plantas consideradas hoje sem valor terão grande potencial farmacêutico. “Além de contribuir para a preservação da vegetação nativa, servirá para baixar os preços de remédios usados para gatriste e outros problemas gastrointestinais”, comemora.

Mesmo sendo estudante de doutorado, Maria Teresa fez questão de trazer sua pesquisa para a SBPC. “Além de permitir que os resultados saiam só do ambiente acadêmico, é uma ótima oportunidade para fazer contatos e parcerias”, diz.

por Juliana Braga


Imagens do dia

A SBPC não é feita só de ciência e tecnologia. A bem humorada Marcha das Vadias percorreu nesta quinta-feira, 14 de julho,  o campus da UFG. A passeata ecoou pela universidade um coro contra  o machismo e o preconceito.

por Luiz Filipe Barcelos


Crianças precisam “cienciar”

A curiosidade das crianças não pode ser silenciada. Foi o que defendeu o professor da Universidade de Brasília e subsecretário da Criança e do Adolescente do Governo do Distrito Federal, Isaac Roitman. “Quando os olhos delas brilham é porque querem ler o mundo. O professor precisa saber decifrar isso”, disse durante o lançamento do livro “A urgência da educação”, que escreveu com o professor Mozart Neves Ramos, da Universidade Federal de Pernambuco e membro titular do Conselho Nacional de Educação.

Isaac afirmou que é necessário fazer mudanças urgentes no sistema de ensino brasileiro. “Nós já perdemos muito tempo para pagar a dívida da má qualidade da educação no Brasil. Chegaremos a um ponto em que a situação vai ficar irreversível”, sustentou.

Ildeu de Castro, diretor de Popularização e Difusão da Ciência do Ministério de Ciência e Tecnologia, acredita que o ensino da ciência deve ser baseado na investigação desde os primeiros anos. “As crianças não podem apenas aprender os conceitos, elas precisam ‘cienciar’, fazer ciência”, defendeu. Isaac interrompeu: “Em muitas escolas parece que o professor ouviu ‘cienciar’ e entendeu ‘silenciar’. As crianças são curiosas, mas acabam ficando mudas na sala de aula”, contou.

Para o professor, a mudança mais importante a ser feita é na formação e valorização dos professores. A professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro Isabel Martins apresentou dados que mostram um avanço no número de cursos de pós-graduação em Ensino de Ciência. De 2000 para cá, o número de programas na área passou de sete para 60. “Precisamos enxergar, entretanto, que a situação é mais complexa. Essas pessoas não vão ser responsáveis por todas as mudanças que a educação precisa. Não adianta falar em melhorias se o professor não tem salário digno nem plano de carreira”, afirmou.

Isabel defende que o ensino da ciência deve capacitar a criança a ler o mundo, e permitir que ela reflita sobre sua posição na sociedade. “Como já dizia Paulo Freire, a leitura do mundo deve preceder a leitura das palavras”, concluiu Isaac.

por Juliana Braga


Atores “assaltam” na SBPC

Uma pintura no rosto, um chapéu e muita irreverência. São com esses ingredientes que jovens “assaltam” professores, alunos, autoridades e curiosos que ocupam salas e auditórios da Universidade Federal de Goiás (UFG) durante a 63ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Eles interrompem palestras, apresentações de trabalho e cursos sem avisar. Mas são tão rápidos e criativos em suas perfomances que não há quem não tire a carteira do bolso e estenda a mão para encher o chapéu. Um assalto criativo e elegante, na opinião de alunos que assistiam à palestra da professora da Universidade de Brasília, Sônia Báo, nesta quinta-feira. Concentrados nas explicações sobre como as nanopartículas podem ser usadas para o tratamento do câncer, eles foram surpreendidos pela aluna da UFG Ana Paula Lobo Soares, integrante do grupo de teatro Assalto. “Desde 1993 assaltamos as pessoas na SBPC, e elas gostam muito”, conta a estudante, que saiu com várias moedas e notas de R$ 2 no chapéu.

por Ana Lúcia Moura


Interdisciplinaridade é chave para inovação

A diretora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília, Sônia Báo, defendeu a interdisciplinaridade como indispensável para garantir inovação nas pesquisas na área de nanobiotecnologia. “Só vamos conseguir trazer inovação para a pesquisa e pós-graduação se conseguirmos garantir essa união de conhecimentos”, afirmou em palestra na Universidade Federal de Goiás, durante a 63º Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Para Sônia Báo, a estrutura dos cursos da área no país ainda não atende às necessidades de interdisciplinaridade. A nanobiotecnologia envolve as áreas de fisica, química, matemática, farmácia, engenharia e outras. “Com a formação teórica que essa área demanda, teremos de formatar os cursos”, disse. Segundo ela, atualmente só há um curso de graduação em nanobiotecnologia no país. Nas demais universidades, em geral, ele entra na graduação em Biologia.

Sônia Báo trouxe dados que mostram que há 325 grupos de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em nanobiotecnologia, 38 redes e 11 institutos nacionais de ciência e tecnologia. “Não dá para dizer que é pouco, mas precisa crescer mais”, apontou.

Convidada pela Sociedade Brasileira de Biologia, Sônia Báo deu uma aula sobre o tema durante a palestra, explicando os conceitos que envolvem a nanobiotecnologia. Morgana da Silva Costa, 27 anos, aluna de graduação em Biologia da Faculdade Araguaia, ficou surpresa com as possibidades abertas pela área, como a utilização de nanopartículas para tratamento de câncer, um dos objetos de pesquisa da professora.

por Ana Lúcia Moura


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